Março, o mês das mulheres: quem cuida da nossa saúde?

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Foto: Banco de imagem

Texto: REFLEXÃO

Março chega trazendo flores, homenagens e discursos sobre força. No Mês das Mulheres, celebramos conquistas e avanços históricos. Mas, antes de qualquer celebração, quero fazer uma pergunta sincera — de mulher para mulher: nós estamos nos cuidando como merecemos?
Como enfermeira, convivendo diariamente com a realidade do cuidado, vejo mulheres que sustentam casas, famílias, trabalhos e rotinas inteiras. Mulheres fortes, resilientes e incansáveis. Mas também vejo mulheres exaustas, adiando exames, ignorando sinais do próprio corpo e colocando sempre a própria saúde em último lugar.

No meu dia a dia, escuto frases que se repetem:
“É só cansaço.”
“Depois eu vejo isso.”
“Tem gente precisando mais do que eu.”
Quase sempre essas palavras vêm acompanhadas de olheiras profundas, dores recorrentes e exames atrasados. Essas mulheres carregam uma força impressionante — mas força não substitui cuidado. Em meio a tantas responsabilidades, surge uma pergunta essencial: quem está cuidando de nós?

Historicamente, a mulher foi colocada no papel de cuidadora, e desempenhamos esse papel com competência e dedicação. Mas existe uma linha tênue entre cuidar e se anular. Desde cedo, muitas de nós aprendemos a priorizar os outros e a medir nosso valor pelo quanto conseguimos dar.

Há também uma pressão cultural silenciosa: a ideia de que a “boa mulher” é aquela que se doa completamente. Colocar-se em primeiro lugar muitas vezes gera culpa ou sensação de egoísmo. Assim, consultas são adiadas, sinais do corpo são ignorados e o descanso se torna raro.

Mas cuidar de si não diminui o amor ou a dedicação pelos outros. Pelo contrário: quando nos fortalecemos, conseguimos cuidar melhor, com presença e equilíbrio.

Ao longo da minha experiência como enfermeira, aprendi que o corpo feminino fala — e fala muito. Ele se manifesta por meio de dores persistentes, cansaço extremo, insônia, ansiedade e alterações hormonais. O problema é que, muitas vezes, esses sinais são normalizados.

Cólicas incapacitantes não são normais.
Viver esgotada não é normal.
Sofrer em silêncio não é sinal de força.
A saúde da mulher vai muito além do exame ginecológico anual. Ela envolve saúde mental, equilíbrio hormonal, prevenção de doenças, qualidade do sono, alimentação e atividade física. Cada fase da vida exige atenção e cuidado.

Neste mês de março, mais do que flores, talvez seja o momento de refletir sobre aquilo que realmente sustenta nossa saúde. Atualizar exames preventivos, ouvir os sinais do corpo, dividir responsabilidades e reservar momentos de descanso não é luxo — é prevenção, amor-próprio e consciência.

Março não precisa ser apenas um mês de homenagens. Pode ser também um convite à mudança. Um lembrete de que a mulher tem o direito de existir para além das suas funções e responsabilidades — podendo ser forte, mas também descansar; cuidar, mas também ser cuidada.

Talvez a maior revolução comece assim: quando a mulher decide ocupar o lugar de protagonista da própria saúde e da própria vida.

Sabrina Pires tem 45 anos, é enfermeira, especialista em Saúde da Família e em Gestão em Saúde Pública. Atuou por mais de 10 anos na linha de frente como enfermeira em postos de saúde, experiência que consolidou sua visão prática, sensível e humanizada da Atenção Primária. Atualmente é gestora da Atenção Primária à Saúde de Maricá, onde trabalha no fortalecimento das equipes, na qualificação dos processos assistenciais e na consolidação de um cuidado baseado em evidências e centrado nas pessoas.