O Trabalho do GSAM na inclusão de migrantes em Maricá

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Foto: divulgação

O mundo atravessa um momento marcado por fluxos migratórios cada vez mais expressivos. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 281 milhões de pessoas viviam em 2020 fora de seus países de origem, o maior número já registrado até então, representando 3,6% da população mundial.

Ao mesmo tempo, o Brasil, historicamente berço de imigrantes, se tornou também um país de partida, estima-se que quase 5 milhões de brasileiros vivam atualmente no exterior, de acordo com dados compilados pelo Itamaraty.

Em meio a esse panorama global, Maricá, município litorâneo da Região Metropolitana do Rio, tem se destacado como um destino emergente para migrantes e refugiados. Muitas vezes movidos por crises humanitárias, instabilidade política ou pela busca de melhores condições de vida, essas pessoas chegam à cidade em busca de acolhimento e recomeço.

É nesse contexto que surge o GSAM Grupo de Solidariedade e Amizade dos Migrantes e Refugiados de Maricá. Fundado por migrantes, o grupo transformou dores e trajetórias pessoais em um movimento de apoio mútuo. Hoje, o GSAM atua na educação, cultura, combate à xenofobia e assistência documental. Tornou-se uma referência em Maricá para pensar políticas públicas de acolhimento, inclusão e dignidade a quem chega.

O projeto nasceu da experiência de Garry Ulysse, 35 anos, haitiano. Ele chegou ao Brasil em dezembro de 2015. Passou uma semana em São Paulo, mas logo seguiu para Maricá, onde tinha um tio. Precisou regularizar documentações, com isso, fazia suas idas ao Rio de Janeiro acompanhado do tio apenas na primeira vez, nas demais, enfrentou filas, deslocamentos e burocracia sozinho. A dificuldade foi tamanha que, como ele mesmo relata, os trâmites “pareciam impossíveis”.

Nesse processo, uma frase do pai ecoou para Garry:
“Meu pai me dizia: nada é impossível nesse mundo, faça o bem sem olhar a quem.”

Foi esse ensinamento que o motivou. Em 2016, mesmo sem tempo, pois trabalhava em um sacolão, ele passou a usar sua folga, as segundas-feiras, para ajudar outros haitianos a obter documentos.

Com o tempo, outras pessoas se juntaram à causa, pessoas que passaram pelas mesmas experiências. Entre elas: Prévert Bartholmy Dossavi de Benin, Zhue Otaiza, da Venezuela, Eve Idrissi, da França, Karli Diaz, da Venezuela, e David Martinez, da Colômbia. Todos moradores de Maricá, critério para integrar o GSAM, todos motivados pelo mesmo desejo: facilitar a vida de quem chega, oferecer acolhimento.

Em 2019 o GSAM formalizou-se como coletivo. E em 2021, com a conquista de editais culturais, o grupo obteve visibilidade e conseguiu ampliar suas ações.
Hoje, o GSAM fornece assistência documental aos migrantes. Com apoio da Secretaria de Direitos Humanos de Maricá, onde Garry atua oficialmente desde 2019, o GSAM acompanha migrantes em todos os trâmites de documentação.

“Quando chega uma pessoa que precisa de documentação, providenciamos tudo de forma gratuita para ajudar os migrantes. Aqui no município eles conseguem esse atendimento. Temos esse apoio.” Afirma Garry.

Garry reforça o desejo de transformar o acolhimento em rede de suporte concreto:

“Gostaríamos de ter recursos para ser o alicerce de migrantes pelos seus primeiros seis meses. Com comida, aluguel, o básico. Para que eles não passem pelas mesmas dificuldades que nós passamos.”

A principal frente de atuação do GSAM é educacional. O grupo promove palestras em escolas, oficinas com crianças e jovens, além de atividades culturais, com o objetivo de combater a xenofobia, o racismo, a ignorância sobre diversidade linguística e racial, e conscientizar sobre a importância da Lei 10.639, que exige o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas.

“Falamos para a base, para as crianças. Eu, como migrante e homem preto, sei da importância desse tema nas escolas.” Afirma Prévert.

O GSAM desenvolve o projeto Sementinhas da Inclusão, voltado à educação básica. A meta é evitar que preconceitos e ignorância sejam reproduzidos de geração em geração. Garry reforça a importância do trabalho de base: “Precisamos esclarecer que, quando falamos crioulo, estamos falando uma língua. Não estamos falando de algo estranho.”

“Tem pessoas na universidade que ainda dizem que a África é um país. Nosso papel é levar conhecimento. Não estamos aqui para condenar quem não tem muita informação. Nosso trabalho é esclarecer.” Alerta ele.

O GSAM promove eventos culturais, feiras de gastronomia, apresentações e convivência comunitária, com o objetivo de valorizar a diversidade cultural presente em Maricá e gerar oportunidades de renda para os migrantes.

“A nossa riqueza cultural vem de vários pensamentos: francês, haitiano, venezuelano, Benin… do coletivo.” Observa Zhue.

Nesses eventos, muitos migrantes vendem pratos típicos, artesanatos e outros produtos de seus países de origem. Além disso, por meio de editais culturais, o grupo conseguiu produzir o documentário “Caminho Além da Fronteira”, financiado pela Lei Paulo Gustavo. O filme retrata a história de migrantes que escolheram Maricá como lar. Uma forma de dar visibilidade a quem muitas vezes é visto apenas como “forasteiro”.

Entre os desafios constantes, o GSAM aponta o preconceito ligado ao trabalho, à formação e à ideia de que imigrantes só servem para “subempregos”.

Eve Idrissi, da França, é firme ao afirmar: “Nós também temos formações. Estamos preparados para trabalhos que exigem nível superior. Não quer dizer que imigrantes apenas trabalham em ‘subempregos’. Com todo respeito e admiração às pessoas que exercem esses trabalhos dignamente, mas nós também somos capazes de atuar em outras funções.”

Para ela, é urgente desmistificar a imagem do imigrante trabalhando apenas em trabalhos que não exigem grau de escolaridade avançado, tendo a impressão de que são incapazes de assumir cargos de liderança.

“O mundo se fez através da migração. Somos todos filhos e filhas de imigrantes, é a imigração que faz o mundo. Não tem ninguém de mais em nenhum lugar. Como os brasileiros querem ser tratados lá fora? É assim que devem pensar quando veem um imigrante aqui.” Resume Prévert.

O GSAM desabafa sobre entraves legais. Segundo o GSAM, muitos migrantes encontram dificuldades em trabalhos com registro em carteira porque as empresas não entendem por que não podem votar.

“O imigrante precisa e pode trabalhar, mesmo não podendo muitas das vezes votar onde está residindo, e isso não deve ser cobrado como pré-requisito para ser contratado. Não faz sentido isso. A lei respalda o imigrante.” Desabafa Eve Idrissi.

Membros da GSAM destacam a necessidade de informação e de políticas públicas que reconheçam o valor dos imigrantes para a sociedade.

“A intenção é que esse projeto chegue ao poder público. Gostaríamos muito que o governo de Maricá percebesse o grupo. Nosso trabalho é educativo, social, fortalece a economia, faz integração cultural. Queremos que Maricá seja vista como um polo de integração de várias nacionalidades.” Afirma Prévert.

O GSAM já atendeu cerca de 100 famílias, pertencentes a mais de 20 nacionalidades distintas, demonstrando o alcance e a relevância de sua atuação.

Para Maricá, uma cidade em crescimento e cada vez mais diversa, o GSAM surge como um ponto de acolhimento e solidariedade, uma ponte de irmandade entre quem chega e quem já mora aqui.

“Migrar é um direito. A nossa luta é pela equidade.” Afirma Garry.

Para saber mais sobre o Grupo de Solidariedade e Amizade dos Migrantes e Refugiados de Maricá, acompanhe o projeto social através do Instagram @migracaomarica