Setembro Amarelo: e depois de setembro?

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Foto: divulgação

Texto da Coluna Saúde, da enfermeira Sabrina Pires.

Algumas campanhas conseguem algo muito importante: fazem a gente falar sobre assuntos que, muitas vezes, preferimos evitar. O Setembro Amarelo é uma delas. E ainda bem.

Durante algumas semanas, falamos mais sobre saúde mental, sobre sofrimento e sobre a importância de não ignorar aquilo que, tantas vezes, passa despercebido no dia a dia.

Mas, enquanto pensava sobre o que escrever nesta coluna, uma pergunta me ocorreu: e após setembro? O que fica dessa conversa quando o mês termina?

Talvez uma campanha de conscientização cumpra realmente o seu papel quando alguma coisa permanece depois dela. Quando passamos a compreender melhor um assunto e, quem sabe, mudamos um pouco a maneira como olhamos para nós mesmos e para quem está ao nosso redor.

Como enfermeira, aprendi, ao longo dos anos, que uma pessoa nunca chega até nós dividida em partes. Não existe de um lado, o corpo e, do outro, tudo aquilo que ela vive. As preocupações, o trabalho, as relações, as perdas, as dificuldades financeiras, a solidão, os medos e tantas outras experiências também atravessam a nossa saúde. Por isso, talvez uma das conversas que o Setembro Amarelo possa deixar seja justamente esta: sofrimento emocional não é fraqueza e procurar ajuda não deveria causar vergonha.

Avançamos muito nesse sentido. Hoje falamos sobre ansiedade, depressão, esgotamento e saúde mental com uma naturalidade que talvez não existisse há alguns anos. Ainda assim, alguns preconceitos permanecem.

É comum alguém dizer tranquilamente que está tratando a pressão alta ou o diabete, mas sentir constrangimento em contar que faz acompanhamento em saúde mental. Como se procurar esse cuidado dissesse alguma coisa sobre a força de uma pessoa. Não diz.

O Setembro Amarelo chama atenção para a prevenção do suicídio, um problema complexo de saúde pública, que não possui uma causa única e não pode ser explicado de maneira simplista. E justamente por isso precisamos falar sobre o tema com responsabilidade.

Não se trata de transformar sofrimento em frases bonitas, nem de imaginar que palavras de motivação sejam suficientes diante de situações que podem necessitar de acompanhamento profissional.

Trata-se, antes de tudo, de tornar o cuidado possível. De falar sobre saúde mental com menos preconceito. De respeitar quem procura ajuda. De compreender que ninguém precisa esperar chegar ao limite para reconhecer que alguma coisa não vai bem.

Talvez seja essa a reflexão que, como enfermeira, eu gostaria de dividir com você neste mês: cuidar de uma pessoa nunca foi cuidar apenas de uma doença. Cuidamos de pessoas com histórias, relações, preocupações, perdas, projetos e diferentes maneiras de atravessar momentos difíceis. E não precisamos compreender completamente a dor do outro para respeitá-la.

Setembro é importante porque nos convida a olhar para um assunto que precisa de atenção. Mas seria ainda mais importante se alguma coisa dessa conversa permanecesse. Que, em outubro, continue sendo possível dizer “não estou bem”, sem vergonha. Que, em novembro, procurar ajuda continue sendo entendido como cuidado. E que, em dezembro, estejamos um pouco menos dispostos a julgar uma dor que não conhecemos. Porque talvez o verdadeiro valor de uma campanha de conscientização não esteja apenas no que fazemos enquanto ela acontece, mas naquilo que escolhemos levar conosco quando ela termina.

Fala, enfermeira!

Saúde mental também é saúde e merece cuidado durante todo o ano. Se o sofrimento emocional estiver interferindo na rotina, nos relacionamentos ou na qualidade de vida, procure ajuda profissional.

Falas sobre morte ou suicídio devem ser sempre levadas a sério. Em situação de risco imediato, saiba o que fazer imediatamente:

Acione ajuda especializada:

Se houver tentativa de suicídio em curso, agressão ou risco grave, chame o SAMU (192). Em casos extremos com ameaça à segurança física, os Bombeiros (193) também podem ser acionados.

Ligue para o CVV (188): O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso 24 horas por dia.

Não deixe a pessoa sozinha: Se possível, permaneça ao lado da pessoa em crise até a chegada de socorro ou de alguém que possa ajudar.

Mantenha a calma: Fale em tom calmo, com empatia, e evite julgamentos ou discussões.

Setembro termina. O cuidado, não.

Sabrina Pires 45 anos, é enfermeira, especialista em Saúde da Família e em Gestão em Saúde Pública. Atuou por mais de 10 anos na linha de frente como enfermeira em postos de saúde, experiência que consolidou sua visão prática, sensível e humanizada da Atenção Primária. Atualmente é gestora da Atenção Primária à Saúde de Maricá, onde trabalha no fortalecimento das equipes, na qualificação dos processos assistenciais e na consolidação de um cuidado baseado em evidências e centrado nas pessoas.