Enquanto as grandes potências mundiais debatem crises inflacionárias e a precarização do trabalho, uma delegação brasileira cruzou o oceano com uma pauta diferente na bagagem: a prova de que a distribuição de renda e o desenvolvimento local são motores econômicos viáveis e potentes, na transformação do paradigma econômico. Num mundo que vê o capitalismo incapaz de oferecer uma vida mais digna aos trabalhadores e proporcionar justiça social, Maricá mostra que com vontade política, incentivo e investimento em políticas públicas e economia solidária é possível mudar este panorama.
No final de outubro, uma comitiva oficial da Prefeitura de Maricá (RJ) esteve na sede do GSEF (Fórum Global da Economia Social e Solidária), para oficializar a cidade como a sede do próximo Fórum Mundial de Economia Social e Solidária, em acontecerá 2027. O anúncio ocorreu durante a 7ª edição do Global Social Economy Forum (GSEF), em Bordeaux, na França, com representantes de cerca de 100 países.
Para o secretário de Economia Solidária e Empreendedorismo Social, Matheus Gaúcho, a escolha de Maricá representa o reconhecimento internacional de uma experiência transformadora.
“Maricá demonstra que é possível construir uma economia voltada para as pessoas, onde o desenvolvimento social e a solidariedade andam de mãos dadas. Sediar o Fórum Mundial é um marco que reafirma nosso compromisso com um modelo econômico mais justo e inclusivo”, destacou o secretário.
A realização do maior evento de economia solidária do mundo, em Maricá, é um marco histórico para o Brasil e para a América Latina. A escolha da cidade como sede do próximo fórum bianual é o reconhecimento mundial de um dos ecossistemas de economia solidária mais robustos e eficientes do planeta.
O subsecretário Adalton Mendonça reforçou que a conquista é fruto de um trabalho coletivo.
“Esse reconhecimento é resultado de um esforço conjunto entre poder público, sociedade civil e os empreendedores locais. Maricá se consolida como um laboratório vivo de políticas públicas inovadoras e inspiradoras para o mundo todo”, afirmou Adalton.
Mais que Petróleo, Pessoas
Maricá utiliza os royalties do petróleo não para inflar os cofres públicos sem propósito, mas para criar uma rede de proteção social circular e sustentável, que blinda a economia local contra crises externas. A prova disso foi excelente desempenho econômico da cidade durante o triste e duro período da pandemia.
A grande protagonista desse modelo é a moeda socialMumbuca, uma moeda digital social aceita em praticamente todo o comércio local. Ela retém a riqueza na cidade, impedindo a evasão de divisas para outros municípios. Também é protagonista desse conjunto de pujantes políticas públicas de proteção social e econômica o programa de Renda Básica de Cidadania (RBC), que beneficia mais de 90 mil moradores, garantindo dignidade e poder de compra. Outro símbolo da cidade e de como o poder público é capaz de transformar a vida das pessoas são os ônibus Tarifa Zero, os Vermelhinhos, um sistema de transporte público gratuito gerido pela EPT (Empresa Pública de Transportes), que garante o direito de ir e vir das pessoas.
Essa tríade (Moeda, Renda e Transporte) criou um ciclo virtuoso que chamou a atenção de prefeitos de Paris a Seul, culminando no convite para a cidade liderar o diálogo global sobre o tema.
O que é o GSEF e a relevância da realização do fórum em Maricá
O GSEF é uma associação internacional de governos locais e redes da sociedade civil comprometidos com a promoção da Economia Social e Solidária. Trazer o evento para Maricá, em 2027, coloca o Brasil e a América do Sul no centro das discussões sobre o pós-capitalismo e o desenvolvimento sustentável.
A recente ida da comitiva de Maricá à sede do GSEF (atualmente baseada em Bordeaux, França, com secretariado internacional rotativo) foi decisiva para isto acontecer. A equipe maricaense, composta por gestores e técnicos, entre eles o secretário de Economia Solidária Matheus Gaúcho, a presidente do Banco Mumbuca, Manuela Mello e o ex-vice-prefeito Diego Zeidan, reuniu-se com a governança do Fórum para desenhar o que promete ser a maior edição da história do evento.
O Fórum em Maricá não será apenas um ciclo de palestras. A cidade vai propiciar uma experiência prática de políticas públicas eficientes e justas. Representantes de mais de 80 países poderão conhecer a moeda social Mumbuca e como funciona um banco comunitário digitalizado e, assim, entender como a economia solidária pode ser política de Estado, e não apenas uma ação de governo.
Maricá, ao sediar o GSEF 2027, envia uma mensagem clara ao mundo: a solidariedade é, de fato, a economia do futuro. E o futuro já começou por aqui.
Um Fenômeno em Números
A Economia Social e Solidária (ESS) vem quebrando paradigmas, deixando de ser apenas um nicho alternativo ao modelo capitalista para se tornar um pilar de sustentação global. Segundo dados recentes da Organização das Nações Unidas (ONU), que em 2023 aprovou uma resolução histórica reconhecendo a importância do setor, estima-se que cooperativas e iniciativas de economia solidária empreguem cerca de 280 milhões de pessoas no mundo, o que representa quase 10% da população mundial empregada.
No Brasil,segundo osdados mais recentes (2024) do Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários (Cadsol), o Brasil tem registrado mais de 20 mil empreendimentos que atuam dentro dos princípios da economia solidária, envolvendo mais de 1.4 milhões de trabalhadores e trabalhadoras. São cooperativas de reciclagem, bancos comunitários, fundos rotativos e associações de agricultura familiar que movimentam bilhões de reais anualmente, priorizando o ser humano sobre o lucro excessivo.
Apesar da magnitude dos números, o Brasil não tinha uma “vitrine” que mostrasse como essas políticas podem ser aplicadas para uma população inteira. É aí que entra Maricá, quebrando paradigmas e mostrando que as utopias são possíveis quando há vontade de fazer justiça social.












