Por: Elaine Nunes
Humilde, guerreira, autêntica e com o coração enorme. Assim era Ronete de Souza Dias, mais conhecida como Nete, uma liderança da Mumbuca, que teve um papel importantíssimo, não só na história do Partido dos Trabalhadores, quanto na vida do atual prefeito de Maricá, Washington Quaquá, à quem tinha como um filho.



Maricaense raiz, Nete nasceu no dia 23/12/1949. Cresceu nas Pedreiras, mas morou quase que a vida toda na Mumbuca, onde fez sua história. Casada com Agostinho, foi mãe de cinco filhos: Sandra, Alexandre, Sandro, Alex e Rafael (seu filho de coração, de quem era madrinha, mas que pegou para cuidar com apenas sete meses de vida) e avó de quatro netos: Alessandra, Yuri, Igor e Vicente.
Segundo Sandra, apesar de toda a dificuldade, Nete era uma pessoa acolhedora, que ajudava todos do bairro. Por isso, era muito querida e amada por familiares e vizinhos. “Mamãe era boa em tudo. Ela deveria ter o primário, antiga 4ª série, mas não tinha medo de trabalhar. Lavava roupa para fora, passava as roupas das minhas amigas, foi manicure, trabalhou em padaria, no Maminha de Ouro como ajudante de cozinha, no Carlos Magno como cozinheira. Enfim, era uma pessoa que se transformava de acordo com a situação. E assim, ela nunca deixou nos faltar nada. A gente não comia carne, mas passar necessidade não. Minha mãe criava galinha, porco, aí chegava um domingo, ela ia e matava, mas não era só uma galinha, era três, quatro. Aí ela fazia aquela galinhada da Nete. Guerreira, uma pessoa que te acolhia, dava conselhos, te abraçava, era feliz e brincalhona. Sempre foi luz, amor, pobre, mas com o espírito rico, porque o que tinha ela dava para o próximo”, explica a filha mais velha, que também fala da proximidade com a família do atual prefeito.
“Quaquá era um menino e poucas pessoas acreditavam nele, mas mamãe nunca deixou de acreditar. A gente era a família dele aqui. Quando não tinha o que comer na casa dele, tinha o que comer na casa da Nete e vice versa, então a gente criou um laço de família, porque a gente cresceu, venceu e o Quaquá nunca esqueceu do que a Nete fez por ele. Ele fala que a gente é família porque na hora que ele mais precisou, da necessidade mesmo, era a Nete da Mumbuca que estava do lado dele. A minha mãe faleceu, mas a história continua, porque o legado que ela plantou vai ser para a vida toda e eu acredito que tudo que Washington Quaquá idealizou, ele vai realizar. Todos os sonhos que mamãe acreditou”, conclui.
Por ser o filho caçula, em todos os locais que podia, Nete levava Alex. “Para mim, minha mãe é um exemplo de mulher, mãe e pessoa. Os vizinhos e sobrinhos eram apaixonados por ela. A gente sempre tinha a casa cheia. Todos que chegavam no bairro, vindos de longe, ela adotou. Pessoas que não eram providas de família e outras com. Ela adotava todo mundo, porque era muito agregadora. Como filho mais novo, eu tenho muita lembrança da minha mãe me levando para tudo que é lugar, como na Cinelândia. Eu na carcunda dela, com uns 6 anos, quando ganhei uma camisa do Brizola. Depois veio o Quaquá com essa militância, aí eu já lembro da minha mãe fazendo as feijoadas. Tudo começou aqui, com as reuniões que a minha mãe fazia para o Nem, porque até então, a gente não conhecia o PT, a gente conhecia o Quaquá, que ela chamava de Nem. Minha mãe fazia tudo na lenha, porque não tinha dinheiro, gás, nem fogão para aquelas panelas todas, então ela montava o fogão com tijolos e gravetos”, lembra Alex.




Para o genro Ronaldo, Nete também era muito especial. “Falar da minha sogra é como falar da minha mãe. Em qualquer lugar que ela passava, assumia a postura de super mãe, até mesmo sem querer. Era com gente, com bichinhos. Eu era como um filho para ela, que me chamava de Naldo. Nunca ninguém me chamou com tanto carinho. E Nete era uma pessoa firme. Quando não gostava de uma coisa, amarrava logo a cara. Não deixava nada para depois. São poucas as pessoas que tem essa forma espontânea de ser”, declara.
Apesar de nunca ter se candidato a nenhum cargo político, Nete é apontada como uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores de Maricá em 1988. De acordo com Ione Siqueira, mãe de Quaquá e primeira Presidente do PT Maricá, ela foi peça fundamental nessa construção.
“Ela militava conosco. Muita gente ficava admirada, porque Nete era uma pessoa humilde, que nunca tinha lidado com política, mas ela tinha amor pelo fazia e abriu a casa dela pra isso. Quase tudo era feito lá, convocatórias, reuniões, porque o quintal era imenso. Carlinhos, Nete e eu íamos nas casas da Mumbuca filiando as pessoas, porque nós só tínhamos nove pessoas quando Quaquá resolveu fazer isso. Para se tornar diretório, tinha que ter mais de 150. Assim, nós conseguimos. Naquela época, a militância fazia as coisas por amor mesmo, não tinha ninguém empregado em nada. Então, a Nete fundou o partido com a gente. Ela tinha uma paixão pelo partido e pelo Quaquá, incrível”, conta Dona Ione, revelando que a proximidade uniu muito as duas famílias.
“Nete era muito trabalhadeira, mas às vezes, a comida fraquinha, um feijão com arroz e tal, aí eles iam lá pra casa, que Carlinhos era sargento da PM naquela ocasião. Quase sempre a gente comia peixe, do Rio Mumbuca, tilápia, traíra. Ela fazia aqueles panelões de feijoada. Depois a gente se mudou, mas continuou próximo. Tudo que Quaquá fazia ela estava. Inclusive, ela foi para Portugal com a gente, porque ele sempre teve um amor muito grande por ela e por todos eles. A gente formava uma grande família. Perder a Nete foi muito triste. Eu tive com Quaquá no sítio, no dia. Ele chorou muito, muito”, revela Dona Ione.
Para os netos, Nete é e sempre será inspiração.
“Minha vó é minha vida, meu mundo, quem me deu o sentido de vida para tudo. Quando eu nasci, minha mãe nunca foi presente na minha vida, então minha vó me pegou para criar e, desde então, me criou com muito amor e carinho. Minha vó é tudo que eu tenho, tudo. A comida da minha avó era surreal. Uma das coisas que a gente sente muito falta. O feijão da minha avó, muito bom. A gente comia muito, muito”, pontua Alessandra,19 anos, que foi a última pessoa a vê-la com vida.






“Eu fui para lá durante a semana. Quando cheguei, ela não sabia quem estava ao redor dela. Aí eu falei que era eu, passei o dia conversando e ela me perguntou como estavam meus irmãos. Não tinha ia para dormir lá, só que ela insistiu para eu passar a noite e acabei ficando. Durante a madrugada, ela teve falta de ar, a médica dizia que estava tudo bem, mas ela sabia que não estava. Minha vó tinha que ficar com uma máscara, mas não conseguia aí pedia pra eu segurar a mão dela. Só que quando a gente acordou de manhã, foi como se aquela mascara não tivesse feito efeito, então a medica me falou que ia ter que entubar. Eu liguei para minha dinda e vim embora, não vi mais minha vó”, diz emocionada.
“A Nete foi uma terceira vó para mim. Eu tive a minha vó por parte de mãe, minha vó por parte de pai e a Nete que eu considerava como uma vó. Inclusive, a chamei de vó Nete até o final da vida dela. Eu frequentava muito a casa dela quando eu era criança. Sou muito amigo do filho dela, Rafael, desde a infância. A relação ali com a família da Nete sempre foi uma relação muito próxima, familiar. Quando meu pai veio morar na Mumbuca, criança, com meus avós, eles fizeram amizade logo com a Nete. Minha avó era vizinha dela. Eu já nasci na outra casa, mas a gente sempre frequentou a casa da Nete e o carinho era muito grande. Ela era uma cozinheira de mão cheia, fazia comida com gosto de comida de vó”, descreve Diego Ziedan, o primeiro neto de Nete.
Com o passar dos anos, Nete adquiriu um fogão industrial para continuar fazendo as delícias que conquistaram tanta gente, como feijoada, galinha com macarrão, galinha com aipim, pé de galinha, rabada e pato. Tudo que tinha “panelada” ela passou a fazer ali, porque não tinha mais condições de cozinhar na lenha, mas nunca deixou de fazer as “comidadas”, que eram sua paixão.
Nete faleceu aos 75 anos, no dia 15 de março de 2025. Seu legado permanecerá vivo, ultrapassando gerações, por tudo que foi capaz de viver e ajudar a construir. Nete da Mumbuca, presente!



