Por: Elaine Nunes
O Carnaval de Maricá tem raízes profundas, com blocos tradicionais desde 1910 e uma forte cultura comunitária. Nos anos 70, a folia destacava a rivalidade entre blocos.

De acordo com o acervo dos professores Maria Penha e Cezar Brum e do Museu Histórico de Maricá, utilizados como base para a elaboração de “Respeita a minha Cultura”, pela professora de História Renata Gama, há registros dos blocos “Tira-teima” e “Jacaré” animando as ruas, com forte caráter de bairro e tradição.
Em seu trabalho, Renata mostra a Maricá do início do século XX, elucidando que neste período surgiram os primeiros blocos de carnaval na cidade. Afinal, consta na Ata da Primeira Igreja Batista de Maricá, um registro, com data de 27 de janeiro de 1917, sobre um grupo carnavalesco chamado “Tira-teima”, que na ocasião ensaiava na rua, mas de repente invadiu o templo durante um culto religioso, carregando o estandarte da Escola, enquanto outros integrantes, do lado de fora, jogavam pedras na igreja.
Entre 1960 e 1980, o maricaense acompanhou desfiles de outros blocos. Como o “Esferinhas” e o “Antiga Amizade”.
A história recente é marcada pela criação da Escola de Samba União de Maricá, a agremiação que representa a cidade na Sapucaí, além de blocos tradicionais que desfilam pelos três circuitos oficiais de desfile, criado pela Prefeitura: Manhoso, em Ponta Negra; Claudinho Guimarães, em Itaipuaçu; e Passarela Adélia Breve, no Centro, com rotas definidas para concentração, desfile e dispersão, garantindo maior fluidez, segurança e conforto para os foliões.
Mas quem prefere curtir a folia carnavalesca em outros bairros, também encontra diversas opções. Ao todo, o Carnaval de Maricá 2026 conta com 76 blocos de rua, com desfiles que arrastão multidões de foliões por toda a cidade.
Alguns blocos mais tradicionais da cidade
Bloco Gabriela
Um dos blocos carnavalescos mais tradicionais e populares de Maricá, com mais de 50 anos de história. Ele surgiu de uma brincadeira entre amigos, que resolveram se vestir de mulher, mas tornou-se conhecido por arrastar multidões (chegando a estimativas de 40 mil pessoas).
Ao longo das décadas, o Gabriela tornou-se famoso pelas marchinhas, axé, samba, fantasias criativas e por proporcionar um encontro de gerações na segunda-feira de carnaval.


Gaviões de Itaipuaçu – Itaipuaçu
Com mais de 30 anos de tradição, o Bloco Gaviões de Itaipuaçu reúne os foliões
na Praça dos Gaviões, no Barroco. O espaço conta com quadra coberta, palco e área cultural, sendo um ponto focal de festas, incluindo feijoada da bateria.
“A gente criou o bloco para brincar. Ficava na areia, éramos poucos. Mas o Gaviões foi crescendo muito e hoje é um dos maiores blocos de Itaipuaçu. Nós seguimos a linha família, para que você possa levar sua esposa, seu amigo, seu netinho. Nunca houve brigas no nosso Bloco, pois prezamos pela segurança de todos. É tranquilidade e diversão”, explica o vice-presidente Jorge Bastos.
Vale destacar a realização de um importante projeto do bloco: uma escolinha de percussão com o Mestre Camarão do Salgueiro, de onde saíram 50 alunos formados (entre crianças e idosos), que atualmente fazem parte do Bloco Gaviões de Itaipuaçu e integram escolas de samba da cidade.
Para 2026, a agremiação lançou um abadá em 3D, com o tema “Raízes do Amanhã”, e bateria remodelada. Mas o Bloco não se limita à samba. Quem participa dos ensaios atualmente, também curte música popular brasileira e axé.

Tromba Nervosa
Um dos mais tradicionais blocos de Itaipuaçu, o Tromba Nervosa celebrou 15 anos de existência no Carnaval do ano passado. Conhecido por arrastar multidões na Orla, o bloco é um dos destaques da programação oficial do município, sendo considerado o maior bloco da região.
O bloco carnavalesco Tromba Nervosa nasceu de uma brincadeira entre vizinhos da Rua Nossa Senhora de Lourdes, antiga Rua 16 do São Bento da Lagoa, em Itaipuaçu.
Em 2011, foi realizado o primeiro desfile, com um pequeno carro de som, uma bateria formada por amigos e muita alegria. O nome Tromba Nervosa tem origem na Pedra do Elefante, localizada no Parque Estadual da Serra da Tiririca, sendo uma alusão à figura do elefante e à forte identidade do bloco com a região.
Atualmente, o Tromba Nervosa mantém a mesma estrutura de organização: uma família cercada de amigos cuidando do bloco mais querido e maior bloco da região.
Como parte de sua identidade, o Tromba Nervosa compõe, todos os anos, um samba próprio. Este ano, o tema é “Viver como criança é muito bom”, exaltando a alegria presente no carnaval.
Com o crescimento do desfile, o trajeto teve que mudar da Rua Carlos Marighella para o Circuito Claudinho Guimarães, na Orla de Itaipuaçu, proporcionando mais conforto e segurança aos foliões.



Ratos de Praia
Um dos blocos tradicionais do carnaval na Barra de Maricá, o Bloco Ratos de Praia é conhecido por animar centenas de foliões na Orla e desfilar na Rua José Frejat (Rua 13, consolidando-se como uma das atrações na reta final do carnaval da cidade.
Costuma ter música ao vivo, com repertório que mistura sertanejo, axé e sucessos carnavalescos, atraindo assim, muitas famílias.
Entre os Pratas da casa que já se apresentaram no Bloco Ratos de Praia estão a dupla Betinho Bahia e Ismayer Alves.

B.C. dos Trabalhadores
O Bloco dos Trabalhadores é um dos tradicionais blocos de rua do Carnaval de Maricá, com desfiles marcados na programação oficial.
Normalmente realizado na Rua Álvares de Castro, em frente à Prefeitura, o bloco é conhecido por reunir os funcionários municipais e milhares de foliões em geral, tendo registros de desfiles focados na animação, como o realizado no estacionamento do Paço Municipal em anos anteriores.
Este ano, porém, a concentração acontece na Praça Tiradentes, em Araçatiba.
Vale ressaltar que, desde a criação do Bloco dos Trabalhadores, em 2011, a troca de abadás, que dá direito à retirada de cervejas e caipirinhas, é feita por kilos de alimentos não perecíveis que, posteriormente, são doados para instituições da cidade.





O Lendário e Polêmico “Bloco do Carvão”
Criado no dia 29/12/85, durante uma reunião do saudoso Dr. Geraldo Alonso, que sugeriu a amigos, a criação de um bloco diferente, o Bloco do Carvão fez sucesso na cidade e marcou a vida de muita gente.
Segundo Edson Dantas, que fez parte da fundação do bloco, foram feitos adesivos e panfletos para serem entregues durante o carnaval. Teve também email para o programa “Fantástico” e a contratação de uma empresa de aviação para sobrevoar Maricá, Saquarema e as praias de Niterói com uma faixa, anunciando o “dia do Carvão”.
“Naquele dia, as pessoas que estavam no churrasco na casa do Ney foram para a Praça Central de Maricá colocar o bloco na rua, o que prometeram fazer em todos os carnavais seguintes. Dr. Geraldo chegou no muro de sua casa e escreveu: “Aqui e agora está fundado o Bloco do Carvão”, usando, naturalmente carvão, o que gerou uma briga com sua esposa, que imaginou que aquela obra seria coisa dos rapazes da rua. Ele, entretanto, assumiu a culpa, dizendo: “Eu pintei de branco, sujei de carvão e pinto de novo”, lembra.
No ano seguinte, o Bloco do Carvão invadiu a cidade com 20 componentes, pulando com muita alegria e descontração. Mas, a partir daí, começou a crescer de forma impressionante, chegando a superar a faixa de 4.500 foliões.
A história do Bloco, no entanto, registra fatos inusitados como nos cinco primeiros anos só ter aceitado a presença de homens na concentração. As mulheres aguardavam, à parte, pela saída do bloco. Talvez seja por isso que, naquela época, boa parte da sociedade não visse o bloco com bons olhos, chegando a partir para a quase proibição dele.
Com o passar dos anos, a história mostrou que o Carvão, na verdade, era um bloco familiar, que contava com a presença de crianças e famílias inteiras. A fama do bloco atravessou fronteiras, tornando-o conhecido em vários estados e países e ele passou a fazer parte do calendário oficial do Carnaval Maricaense, embora não tivesse estatuto.
Infelizmente, o Bloco do Carvão acabou extinto. “A gente tenta se reunir todo aniversário do Carvão, em dezembro. No ano passado, fizemos um churrasco com banda, numa área privada, no domingo de carnaval, só para a gente mesmo, foi para que os nossos filhos pudessem ver como era o bloco. E foi muito bacana”, conta Edson.












