União de Maricá desfila identidade, ancestralidade e pertencimento no Carnaval 2026

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Foto: Renata Xavier

A expectativa é grande, para ver a União de Maricá novamente cruzar a Marquês de Sapucaí. Jovem no tempo, mas madura no discurso e na construção artística, a escola leva para a Avenida em 2026 um enredo que mergulha na ancestralidade negra e na força feminina, reafirmando sua identidade e sua ambição dentro do maior espetáculo popular do país.

Foto: Renata Xavier

Fundada em 2015 com a missão de reunir tradições e fortalecer o samba local, a União de Maricá chega no Carnaval consolidada na Série Ouro e com o olhar voltado para voos ainda mais altos. O desfile deste ano é tratado internamente como um passo estratégico e simbólico: mais do que disputar notas, a escola aposta em um espetáculo que conecta história, estética e pertencimento.

À frente da agremiação, o presidente Matheus Santos destaca que o momento vivido pela escola é resultado de um trabalho contínuo, construído em diálogo com a comunidade e com planejamento a longo prazo.

“A União de Maricá chega ao Carnaval 2026 com a perspectiva de reafirmação do seu projeto de escola e do seu lugar na Marquês de Sapucaí. Estamos falando de um trabalho construído com seriedade, planejamento e muito respeito à nossa comunidade. Desfilar na Sapucaí é uma conquista coletiva e a nossa expectativa é apresentar um espetáculo que dialogue com o público, emocione e, acima de tudo, represente quem somos”, afirma.

Criada a partir da união de antigas escolas da cidade, a União de Maricá nasce já com padrinhos de peso no Carnaval carioca: a Unidos do Porto da Pedra e o tradicional Cordão da Bola Preta. Em menos de uma década, a escola constrói uma trajetória marcada por acessos, títulos e crescimento artístico. Em 2018, ao homenagear o centenário do Bola Preta, conquista o título da Série Bronze e sobe para a Série Prata. Anos depois, com o enredo “Eu, enredo Nordestino”, alcança a Série Ouro e, em seguida, a tão sonhada Marquês de Sapucaí.

Hoje, a escola encara o desafio de se manter competitiva em um grupo cada vez mais disputado, sem abrir mão de sua identidade. Para Maricá, a presença anual da agremiação na Avenida se transforma em motivo de orgulho coletivo e de afirmação cultural.

Para 2026, a União de Maricá apresenta o enredo “Berenguendéns e Balangandãs”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira. A proposta parte das joias usadas por mulheres negras, especialmente as pencas de balangandãs, para contar uma história de resistência, espiritualidade, economia e identidade cultural.

Muito além da exuberância visual, os balangandãs surgem como símbolos de sobrevivência e autonomia. Compostos por pingentes variados, como frutas, figas, pequenos animais e elementos religiosos, esses adornos funcionavam como amuletos de proteção, expressão de fé e até forma de poupança, em um contexto em que mulheres negras precisavam criar estratégias próprias para garantir autonomia em uma sociedade excludente.

Ao colocar esse universo no centro do desfile, a União de Maricá propõe uma leitura afrocentrada da história brasileira, destacando o protagonismo feminino negro e a sofisticação estética produzida a partir da ancestralidade africana.

Para o presidente da escola, o enredo também dialoga diretamente com sua trajetória pessoal.
“Esse enredo tem um significado muito profundo pra mim, enquanto homem preto, filho de uma família preta, e enquanto presidente de uma escola que nasce e cresce a partir dessa ancestralidade. Os berenguendéns e balangandãs são símbolos de resistência, fé, proteção, identidade e história. Eles carregam a memória do povo negro, especialmente das mulheres negras, que transformaram o corpo em território de afirmação cultural e espiritual”, destaca Matheus Santos.

A escolha do tema reforça uma visão de Carnaval que ultrapassa o entretenimento. Na proposta da União de Maricá, o desfile se constrói como narrativa visual e musical capaz de provocar reflexão e reconhecimento. Alegorias, fantasias e samba se articulam para contar uma história que dialoga com o presente, sem perder de vista o passado.

O samba-enredo de 2026 acompanha essa linha narrativa ao exaltar a força das mulheres negras, a espiritualidade de matriz africana e a ideia de pertencimento. Com versos que evocam ancestralidade, resistência e orgulho, a obra se torna mais uma ferramenta de comunicação direta com o público da Sapucaí.

Segundo Matheus Santos, a expectativa é de um desfile que emocione e provoque identificação.
“O público pode esperar um desfile potente, sensível e necessário. A União de Maricá vai atravessar a Sapucaí propondo reflexão, mas também celebração. É um desfile que fala de memória, de pertencimento e de orgulho. Temos um grande carnavalesco, que é o Leandro Vieira, e um time experiente que lidera o trabalho junto à nossa comunidade, que a cada ano tem sido mais presente e forte. Queremos que as pessoas se reconheçam, se emocionem e saiam da Avenida entendendo que o Carnaval também é um espaço de educação, de valorização da cultura negra e de afirmação da nossa história”, completa.

A cada Carnaval, cresce o número de componentes da cidade envolvidos no desfile, seja nas alas, na bateria ou nos setores de apoio. Essa presença local reforça o caráter coletivo do projeto e transforma o desfile em uma extensão da identidade de Maricá no maior palco do samba.

O desfile de 2026 se apresenta como mais um capítulo de uma trajetória que ainda está sendo escrita, mas que já deixa marcas importantes no cenário do samba.

Entre o brilho dos metais e o balançar simbólico dos balangandãs, a escola promete levar para a Sapucaí um espetáculo que fala de passado, presente e futuro, com os pés fincados em Maricá e o olhar voltado para o alto.