
Coluna: Histórica
Muito antes da modernização da cidade, as mulheres de Maricá sustentaram famílias, preservaram saberes artesanais e enfrentaram a dura realidade da vida rural. Sua força silenciosa atravessou o tempo e ajudou a construir a identidade cultural do município.
Mulheres que marcaram uma época
No final do século XIX, duas mulheres representam simbolicamente a vida feminina na região rural de Maricá: Maria Teodora Fernandes de Andrade e Maria Francisca Fernandes de Andrade, moradoras de Pindobal, no ano de 1898. Seus nomes preservados na memória familiar revelam um retrato da mulher maricaense daquele período — uma mulher forte, trabalhadora e profundamente ligada à vida da terra.

Fonte: Acervo Historiadora Maria Penha de Andrade e Silva

Entre lagoas e restingas, sua arte preserva o saber tradicional das mulheres maricaenses do século XIX.
Fonte: Internet

Fonte: Acervo Historiadora Maria Penha de Andrade e Silva
A antiga Vila de Santa Maria de Maricá vivia, então, um momento de transformação. A economia rural baseada no cultivo da cana-de-açúcar e do café estruturava a sociedade local, marcada por grandes fazendas e engenhos, mas, também, por profundas desigualdades sociais. Nesse cenário, a presença feminina era fundamental para a organização da vida familiar e da economia doméstica.
A mulher no contexto patriarcal
Durante o século XIX, a sociedade brasileira era fortemente patriarcal. A mulher vivia sob a autoridade do pai e, após o casamento, sob a autoridade do marido. O casamento era frequentemente arranjado entre famílias e a fidelidade feminina era rigidamente exigida. A mulher era valorizada principalmente por sua capacidade de cuidar da casa, educar os filhos e manter a ordem doméstica.
Nas famílias mais abastadas, as mulheres brancas administravam o ambiente doméstico e supervisionavam o trabalho das pessoas escravizadas. Mesmo nessas casas, sua liberdade era limitada.
Muitas residências possuíam rótulas nas janelas, estruturas de madeira que permitiam observar a rua sem que as mulheres fossem vistas, preservando a discrição considerada adequada à época.
O trabalho invisível das mulheres
Apesar das restrições sociais, a vida rural exigia intensa participação feminina.
Nas áreas agrícolas de Maricá, as mulheres dividiam seu tempo entre o trabalho doméstico e as atividades produtivas. Muitas delas desempenhavam jornadas longas e cansativas.
Entre suas atividades estavam:
- o plantio e a colheita nas pequenas roças familiares
- a preparação da farinha de mandioca
- o corte de palha para artesanato
- o preparo de alimentos
- o cuidado com os filhos e com a casa
Em diversas comunidades rurais, especialmente nas regiões próximas às lagoas e restingas, as mulheres também trabalhavam coletivamente, ajudando umas às outras em atividades agrícolas e domésticas. “Entre a lagoa e o engenho, minha labuta nunca tem fim, mas minha força molda o destino desta casa.” “A calmaria de Maricá esconde a rotina exaustiva de quem cuida da família e da terra.”
Mulheres escravizadas e resistência cultural
No mesmo período, as mulheres escravizadas desempenhavam funções essenciais, tanto nas casas, quanto nos campos.
Elas atuavam como:
- cozinheiras
- amas de leite
- trabalhadoras agrícolas
Mesmo diante da exploração, muitas mantiveram vivas tradições culturais africanas. Algumas ficaram conhecidas como ganhadeiras, mulheres que vendiam alimentos ou produtos nas ruas e, em alguns casos, conseguiam juntar recursos para comprar sua liberdade. Essas trajetórias revelam formas silenciosas de resistência e preservação cultural.
A taboa: natureza e cultura
A paisagem natural de Maricá também influenciou profundamente o modo de vida local.
Nas áreas alagadas e margens de rios cresce a taboa (Typha domingensis), planta aquática abundante na região. Suas folhas longas sempre foram utilizadas pelas comunidades locais para produção artesanal. Com a palha da taboa eram produzidos:
- esteiras
- cestos
- chapéus
- bolsas
Além de seu valor cultural, a planta possui grande importância ecológica, contribuindo para a proteção do lençol freático, abrigo da fauna e redução de enchentes. Hoje, iniciativas, como o projeto “Benedita da Taboa: Memória Viva de Maricá”, buscam preservar esse conhecimento tradicional transmitido por gerações de artesãs.
Um baile histórico em Maricá
Enquanto a maioria das mulheres se dedicava ao trabalho rural e doméstico, a elite local participava de eventos sociais restritos. Um dos momentos históricos mais marcantes ocorreu em 1868, quando Maricá recebeu a visita da princesa Isabel, Princesa Imperial do Brasil. Em sua homenagem foi realizado um baile oficial no antigo prédio da Câmara Municipal de Maricá. Entre os participantes estava Perciliana Oliveira Pereira, com apenas 13 anos. Moradora da região do Saco das Flores e sobrinha do sesmeiro Simão de Oliveira Pereira, ela participou do evento que marcou a vida social da época.
Bordados que atravessaram o tempo
A tradição artesanal feminina de Maricá continuou viva ao longo do século XX. Uma das figuras mais importantes nesse processo foi a artista têxtil Madeleine Colaço, nascida em Tânger, no Marrocos, em 1907. Ao se estabelecer no Brasil, ela desenvolveu um importante trabalho no bairro do Espraiado, em Maricá. Madeleine resgatou técnicas tradicionais de bordado herdadas do século XIX e também introduziu novas técnicas, como o famoso ponto brasileiro, que se tornaria referência na arte têxtil. Inspiradas por seu trabalho, muitas mulheres da região passaram a produzir tapeçarias e bordados reconhecidos como verdadeiras obras de arte.
Tradições preservadas
A memória dessas práticas pode ser vista em registros históricos da própria comunidade.
Uma fotografia da década de 1950 mostra Senhora Conceição Andrade lavando roupas no Rio Itapeteú, em Maricá. A imagem revela um costume comum entre as mulheres da região durante décadas: lavar roupas às margens dos rios, atividade que também se tornava momento de convivência comunitária. Outra personagem marcante é Dona Dilma, reconhecida bordadeira do Espraiado, que manteve viva a tradição do bordado transmitida por gerações de mulheres.
Um legado de coragem e cultura
A história de Maricá não foi construída apenas por grandes fazendeiros ou autoridades políticas. Ela também foi moldada por mulheres que, muitas vezes, de forma silenciosa, sustentaram famílias, cultivaram a terra e preservaram saberes tradicionais. A mulher maricaense do século XIX tinha sua beleza na coragem, na dedicação e na resistência diante das dificuldades. Seu legado atravessou o tempo e chegou ao século XX por meio da cultura, do artesanato e da memória familiar. “Minhas mãos estão calejadas, mas meu espírito permanece firme como as palmeiras de Ponta Negra”. Hoje, reconhecer essas histórias é também valorizar as mulheres que ajudaram a construir a identidade cultural de Maricá.

Fonte: Internet




Fonte: Acervo Historiadora Maria Penha de Andrade e Silva
Equipe de Pesquisa:
Claudia Maria Ramos – Nutricionista, Pós Graduada em Clínica e Metabolismo, Bióloga e Psicopedagoga
Maria Penha de Andrade e Silva – Historiadora, Pedagoga e Especialista em Educação
Renata Toledo Pereira – Doutoranda em Educação, Pedagoga e Historiadora


