Gabriela Lopes: educação, empreendedorismo e liderança feminina

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Foto: divulgação

No Mês das Mulheres, celebrar trajetórias que rompem barreiras é também reconhecer o impacto transformador do empreendedorismo feminino na vida de tantas famílias. A história da professora, empresária e estudante de psicologia, Gabriela Santos da Silva Lopes Siqueira, 32 anos, é exemplo de como determinação, estudo e coragem podem mudar destinos.

De Honório Gurgel, zona norte do Rio de Janeiro, Gabriela cresceu em uma família de origem humilde. “Ninguém da minha família havia entrado na universidade até então. Eu fui a primeira”, conta. Formada no Colégio Estadual Elisiário Matta, em Maricá, prestou vestibular e foi aprovada na UERJ para cursar História e na UFRJ para Ciências Sociais. Escolheu estudar no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) e construiu sua trajetória sempre pela educação pública.

Aos 11 anos, mudou-se para Maricá, onde concluiu o ensino médio e se formou professora. Antes mesmo de receber o diploma, já havia sido aprovada em concurso público para Docente II, o que fez com que saísse da escola já concursada, iniciando sua carreira na rede municipal. Filha de pais separados, Gabriela cresceu observando a força da mãe para sustentar a casa praticamente sozinha. “Eu sempre vi minha mãe trabalhando muito. Teve uma época em que ela ia ao fórum porque meu pai não pagava pensão. Um dia eu disse que não queria mais aquilo, que já tinha meu dinheiro e não queria que ela ficasse se “humilhando”, relembra.

Ainda jovem, começou a vender roupas e lingeries consignadas de Nova Friburgo, além de produtos de beleza. Percorria cidades promovendo sessões demonstrativas e formando equipes de consultoras. “A grande virada foi quando comecei a me destacar como líder de uma equipe grande e ganhei mais dinheiro do que dando aula. Foi meu despertar para o meu próprio negócio e para não depender de ninguém.”

Gabriela não romantiza as dificuldades, mas reconhece a importância delas em sua formação. “Não passei fome por dois motivos: uma mãe que é leoa e o Bolsa Família”, afirma. Recorda-se de momentos em que a mãe vendia objetos da casa para garantir o alimento do dia.

Com leveza, lembra: “Hoje eu acho graça quando vejo ‘polenta frita’ no cardápio de restaurante. Na época da dureza, polenta frita era angu frito com arroz e feijão, porque não tínhamos nem ovo.” As experiências de escassez fortaleceram seu desejo de transformação. “Isso tudo me fez querer mudar de vida e não repetir o que já vivi.”

Para a professora, psicóloga e empresária, o empreendedorismo feminino é ferramenta de liberdade. “Eu vejo o empreendedorismo feminino como emancipação, autonomia e oportunidade de crescimento sem limite. É tirar ideias do papel com estratégia, foco e resiliência.”

Ela reconhece os múltiplos papéis que as mulheres desempenham, mas acredita na capacidade de superação. “Nós nos desdobramos, somos múltiplas. Não podemos ficar sentadas reclamando. Temos que ultrapassar isso e estamos.”

Em Maricá, Gabriela faz questão de retribuir o apoio que recebeu no início. “Tive empresárias que abriram seus espaços para eu apresentar meus produtos. Eu nunca vou esquecer isso.” Hoje, usa sua visibilidade para fortalecer outras mulheres. “Se eu posto uma bolsa e alguém compra para presentear no Natal, não custa nada para mim e vale muito para quem está começando.”

A atuação em espaços públicos ampliou sua exposição e também os julgamentos. Gabriela também tem presença ativa em projetos e eventos, sendo uma das responsáveis pela administração de iniciativas como o Camarote Favela, RioJá e EntreRios. Em reconhecimento à sua trajetória e atuação, ela recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga, homenagem concedida a mulheres que se destacam na sociedade.

Foto: divulgação

“Amplia como exemplo, mas também como alvo”, diz, sobre críticas e ataques, especialmente nas redes sociais. Ser mulher e empresária em ambientes ainda marcados pelo machismo exige firmeza. Ainda assim, ela evita generalizações. “Eu não vejo homens como opositores. Trabalho em cooperação. Homens e mulheres podem ser igualmente injustos. Existe muito machismo entre mulheres também, infelizmente.”

Sua resposta aos desafios é o trabalho. “Se não me respeitam, eu mostro meu trabalho. E passam a ter que me respeitar.”

Gabriela defende políticas públicas que fortaleçam o empreendedorismo feminino, crédito com juros baixos ou zero, maior prazo de carência, ampliação de escolas em tempo integral e acesso à educação financeira. “Hoje, quem não é visto na internet não é lembrado. Cursos de gestão, marketing e presença digital já são um bom começo.”

Para ela, apoio estrutural e qualificação são fundamentais para que mais mulheres possam empreender com segurança e autonomia.

No Mês das Mulheres, Gabriela deixa seu recado: “Como diz o samba-enredo da Mocidade, ‘sonhar não custa nada’. E eu acrescento: sonhar grande ou pequeno dá o mesmo trabalho.”

E conclui com um conselho direto às mulheres que ainda hesitam: “Estude, comprometa-se com você mesma, ande com pessoas que te impulsionem. Não espere o momento ideal. A vida é o momento ideal.”