Em sua casa em Itapeba, um senhor de 76 anos segura o instrumento que é, ao mesmo tempo, sua arte e seu refúgio. Seu Alcebiades Cortes ou, como é conhecido popularmente, Bidi do Acordeon, não é apenas um músico, mas um arquivo vivo da história cultural de Maricá. Nascido em 18 de janeiro de 1950, no bairro de Ponta Grossa, Bidi carrega experiência de décadas de estrada e a sabedoria de quem sabe que o verdadeiro forró não precisa de artifícios.

A paixão de Bidi pelo forró e pelo acordeon começou cedo, aos cinco anos, quando ele trocava as brincadeiras de criança para ficar grudado nos sanfoneiros que o pai levava para tocar em casa. Mas o divisor de águas veio pouco depois. Aos 10 anos, seu pai comprou sua primeira sanfoninha.
“Eu comecei a tocar com 10 anos. Tocava em circo, em vários lugares… Criança tocando instrumento sempre é aplaudida, sabe como é? E aquilo me entusiasmava”, recorda Bidi.
O incentivo familiar foi o combustível para o talento que crescia ouvindo Luiz Gonzaga no rádio de pilha. Em 1963, Bidi teve uma grande alegria e surpresa ao ver o Rei do Baião pessoalmente em Maricá.
“Luiz Gonzaga veio aqui e eu fiquei doido. Comecei a perturbar meu pai até ganhar um acordeon maior. Eu tinha mais ou menos 13 anos quando ganhei meu primeiro acordeon. No começo achei difícil, acostumado com a sanfona pequena, mas estudei até pegar o macete. Meu negócio era tocar forró”.
Os Bravos do Forró
Em 1978, nascia o projeto que daria voz definitiva ao seu talento: a banda Bravos do Forró. Mais do que um grupo musical, o conjunto surgiu como uma extensão de sua própria casa. A formação original tinha um DNA puramente familiar, contando com a participação de sua irmã, Maria Lúcia, e de seus sobrinhos Cidival e Sérgio. Para Bidi, o forró pé de serra nunca foi apenas entretenimento, mas um patrimônio que precisava ser preservado em sua forma mais pura, unindo gerações.
A humildade de Bidi é tamanha que ele próprio admite ter se escondido ao longo dos últimos anos. Mas sua fama entre as figuras históricas da cidade é inegável. Uma de suas passagens favoritas envolve um encontro inusitado com o atual prefeito de Maricá, Washington Quaquá.
“O Ronaldo Valentim disse: ‘Vem cá que eu quero te apresentar uma pessoa’. Quando o Quaquá me viu, levantou e veio ao meu encontro me dar um abraço. O Valentim ia me apresentar, e o Quaquá disse: ‘Rapaz, como você vai me apresentar o Bidi? Eu perdi muitas aulas para ver esse cara tocar no Ônibus das Oito!'”, conta Bidi.

O “Ônibus das Oito” e o Rádio
Quem viveu em Maricá nos anos 80 com certeza lembra do projeto Ônibus das Oito, que acontecia às quartas-feiras em frente à atual Casa de Cultura. Bidi era atração fundamental do evento patrocinado pelo comércio local.
Além dos palcos, Bidi dominou as ondas do rádio por 15 anos com o programa “Forró do Bom”, na Rádio Clube de Maricá. Foi ali que ele começou a notar — e a denunciar — a perda das tradições.
“Eu falava no ar: daqui a uns tempos nossos filhos e netos não vão saber o que é uma festa junina. Você vai a um evento e não vê uma sanfona, não vê um chapéu de palha. Estão destruindo a cultura”.
A Conexão com a família Gonzaga
A devoção de Bidi ao legado do Rei do Baião não ficou apenas nos forró. Em meados da década de 80, Bidi conheceu Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga, quando foi convidado a tocar zabumba em sua banda. Do encontro, nasceu uma amizade, que abriu as portas da família para o sanfoneiro de Maricá. Bidi não só frequentou a casa de Zé Gonzaga no Rio de Janeiro, como realizou o sonho de visitar a terra sagrada do forró: Exu, em Pernambuco. Lá, ele viveu momentos históricos ao conhecer o Parque Asa Branca e hospedar-se na casa de Seu Januário, o lendário pai de Luiz Gonzaga. Essa imersão nas raízes do mestre consolidou o respeito de Bidi pela tradição.
O show de 13 anos no Tamarindos Bar
Um dos capítulos mais marcantes de sua trajetória foi a inauguração do Tamarindos Bar, 1986. Bidi saiu de uma apresentação na tradicional Festa de São Pedro e foi direto abrir a casa. O que seria uma noite única transformou-se em 13 anos de forró.
Bidi também foi atração importante durante mais de uma década no inesquecível Forró do Manhoso, uma casa de forró tradicional e folclórica de Maricá. Ali nasceu uma parceria com o músico Manhoso que durou muitos anos e foi fundamental em sua trajetória. Juntos, eles pegaram a estrada para fazer shows em Minas Gerais, Bahia, e outras cidades Brasil à fora. Essas viagens não eram apenas turnês, mas verdadeiras expedições culturais que mostravam a força do forró maricaense além das nossas fronteiras.
A Sanfona como Cura
A vida de Bidi não foi feita apenas de aplausos. Por muitos anos, ele enfrentou a dura rotina de motorista de ônibus coletivo, uma profissão que ele descreve como “horrível e estressante”, devido às estradas de chão e ônibus precários da época. O estresse foi tanto que ele precisou de tratamento psiquiátrico.
“Eu não vivia de música. O acordeon era para ajudar na despesa e também para arejar a cabeça. A música é boa demais para a gente esquecer os problemas e viver mais feliz. Ela servia para isso: um escape”.
O Desabafo de um Maricaense Raiz
Bidi é um purista. Sua formação de banda é inegociável: acordeon, triângulo e bumba. “Eu já disse para várias pessoas: eu paro de tocar, mas não mudo meu conjunto. Não mudo”.
Hoje, vivendo na mesma casa onde cresceu em Itapeba com seus pais, Bidi continua sendo um símbolo de resistência cultural. Sua música é um convite para o arrasta-pé, mas também um grito por reconhecimento.
“O artista não faz arte para si, faz para o mundo. E a gente precisa saber se o mundo está gostando. A gente precisa valorizar e preservar mais as tradições da nossa cidade”, finaliza o mestre, com a sensibilidade de quem dedicou a vida a manter o forró pé-de-serra vivo no coração de Maricá.















